Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2010

A Profecia de Istambul - Alberto S. Santos - Opinião

 

Esta foi mais uma daquelas leituras que ao início me assustou. De facto, é fácil desiludirmo-nos quando criamos expectativas muito elevadas. Li este ano “A Escrava de Córdova”, do mesmo autor, e confesso que adorei. Desde essa leitura e desde que soube do lançamento do “A Profecia de Istambul” que tenho esperado ansiosamente para o ler.

Este novo livro correspondeu às minhas expectativas e proporcionou-me horas de prazer numa leitura envolvente, graças uma escrita fluída mas rica, e a uma história com certeza fruto de uma grande pesquisa que, deduzo, foi feita com gosto e rigor.

A nível dos gostos pessoais a minha predilecção vai para os Romances Históricos, toca-me sempre a forma como é possível construir uma história com base noutra, real, e com séculos de existência. Já para não falar na quantidade de informação que podemos recordar, aprofundar e aprender. Neste caso o autor levou-me numa viagem no tempo e no espaço: século XVI, a diversos países que adorava conhecer, e meditar no presente sobre todo este passado que representa as nossas raízes.

Jaime, ainda adolescente no início do livro, tem à sua espera páginas de aventuras inimagináveis. O seu percurso começa em Córdova, mas uma série de acontecimentos precipitam uma longa viagem para locais bem distantes da sua realidade. Desde o Norte de África a Istambul, mas sempre com a sua Espanha natal em mente, Jaime é levado pelos acasos do destino num percurso sinuoso de duras escolhas.

O autor explora mais uma vez o tema da religião e da fé como ponto central da vida das personagens. De facto, na época assim era, a religião tinha uma peso dominante na sociedade, e a Inquisição um papel preponderante nas opções religiosas (na forma como muitos se viram forçados a renegar) e geográficas (quando a única solução era fugir).

Graças a uma caracterização isenta do que vou chamar correntes religiosas: Cristã, Judaica e Muçulmana, pude reflectir e aprender sobre alguns dos princípios que as regem. Achei curioso a Judia Grácia Nasi, sobre quem têm sido editados livros recentemente e, consequentemente se tem falado, ser também uma personagem desta história.

O percurso de Jaime é pautado pelo conflito interior e pela reflexão. A sua fé ultrapassa a lógica – perseguido pela Inquisição, abandonado pelo seu Rei, mesmo assim não consegue renegar totalmente às suas crenças e obter uma nova vida com promessas de sucesso profissional, social e familiar. Mas não só de religião são compostas as suas razões, o amor que sente por Rosa, já desde a adolescência, e o desejo de um dia possam ficar juntos, faz com que Jaime nunca se entregue completamente às opções que a vida lhe vai apresentando.

O romance entre Rosa e Jaime é descrito de uma forma muito bonita, dei por mim a “torcer” por eles durante toda a leitura. Gostei da forma como este amor está sempre presente, tão real, entre duas personagens que passam a maior parte do livro afastados.

Uma missão é entregue a Jaime. Ele segue-a cegamente, sem saber todos os motivos ou razões de certos actos, apenas por lhe serem pedidos por aqueles em quem confia. O autor explora muito bem a amizade verdadeira e altruísta, a meu ver uma raridade ou até uma utopia, sem dúvida um modo de fé nos outros muito difícil de encontrar hoje em dia.

À semelhança de Jaime o leitor percorre a narrativa envolvido no mistério, sem saber o porquê das perseguições, da tortura, ou das sociedades secretas. No final tudo se esclarece e faz sentido numa profecia que a história comprovará cumprida.

Um livro que me encheu as medidas, que recomendo, e do qual me apetece falar horas a fio.

Sinopse 

“Apenas um pequeno grupo de iluminados conhece o inquietante mistério associado à Lança do Destino que, em silêncio, atravessa séculos e milénios. As cidades de Istambul, Argel e Salónica do século XVI são o exótico cenário da luta entre o Bem e o Mal, onde nasce uma terrível profecia que ameaça o futuro da Humanidade.
A Profecia de Istambul é um empolgante romance que traz à cena os prodigiosos seres que transformaram a bacia do Mediterrâneo num fervente caldeirão cultural durante o Século de Ouro. Num tempo em que mudar de religião pode significar a ascensão social ou a fogueira da Inquisição, muitos são os homens e as mulheres permanentemente confrontados com as mais duras penas, e com a sua própria consciência, para que tomem a decisão das suas vidas.
Pelo meio de corsários, cativos, renegados, conquistadores e judeus fugidos dos estados ibéricos, entre um inviolável pacto e um perturbante mistério, emerge uma fascinante história de amor, que irá colocar à prova os valores mais profundos de um ser humano.
O que é mais valioso: o amor ou a salvação da Humanidade?”

Porto Editora, 2010

publicado por marcia às 18:02
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