Terça-feira, 30 de Maio de 2017

A Minha Feira do Livro de Lisboa, outra vez!

Há cerca de um ano escrevi o meu primeiro artigo para a Revista Inominável. Chamei-lhe A Minha Feira do Livro de Lisboa, porque fiz (ou tentei fazer) desse espaço o meu quarto de coisas pessoais. Há mais uma Feira do Livro de Lisboa prestes a começar e uma nova Inominável quase a sair. Ando por lá a escrever sobre livros e decidi publicar pontualmente os meus artigos aqui. Boas leituras, boa Feira e boas compras a todos!

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A minha Feira do Livro é só minha. Não façam essa cara que eu sei que chega para todos. Mas a Feira que eu guardo, a Feira que eu espero sempre com ansiedade, aquela em que passeio, sozinha ou com amigos, a que trago para casa nos sacos de livros comprados e no coração, é minha. Só minha.

A Feira nunca está realmente pronta a começar no primeiro dia. Ou porque ainda não chegaram os livros a algumas barraquinhas (agora diz-se stands mas eu não quero saber), ou porque não há multibanco, ou porque não há luz. Sim, lembro-me de um ano em que não havia luz, para compensar chovia copiosamente. Que fui para lá fazer, perguntam-me?  A sério? Ainda acham necessário fazer essa pergunta? Como não ir, se a Feira começou?

A Feira deixa-me saudades desde o dia em que termina. Padeço de sentimentos nostálgicos até ao primeiro dia da Feira seguinte. A melancolia da festa dos livros assalta-me muitas vezes, e, mesmo no dia mais frio do Inverno, sou levada pelo desejo de voltar ao Parque. Imagino o caminhar acima e abaixo, a animação nos rostos, os sorrisos conhecidos com quem me cruzo sempre, todos os anos.

O cheiro das farturas surpreende-me a memória, que a Feira tem prazeres além dos livros, e eu gosto de partilhar um doce com um amigo, no meio da partilha das pechinchas do dia. Com canela e muito açúcar, peço eu, com os olhos brilhantes da gulodice contida no resto do ano. Os cristais de açúcar colados aos lábios lembram-me que nenhuma fartura me sabe tão bem como aquela, que a Feira não pode acabar sem que ceda mais uma vez (e outra) ao pecado da gula, que só é amargo o sabor da fartura que ficou por comer, prometida, mas não cumprida. Esquecida por quem a havia de ter comido comigo.

Gosto de ir logo no primeiro dia. Mas vendo bem, não é uma questão de gosto, é por não aguentar não ir. Como faltar, se a Feira já começou? No primeiro dia janta-se no meio dos livros, num ritual de amigos especiais, bebe-se a primeira ginja e fica-se até ao fim, a ver, lá do topo, a noite a cair no Parque. 

Agora, que a ansiedade desacelera a contagem decrescente, os dias que faltam são os que custam mais a passar, por serem cada vez menos. Preparo as listas de desejos, faço as contas aos meses de publicação e um cálculo aos possíveis descontos, e invento espaço para os livros que hão-de habitar as estantes.
Em 2016 teremos dezanove dias de Feira. Teremos três fins-de-semana de dias longos para assistir com mais tempo a lançamentos e todo o tipo de eventos. Em relação aos eventos, tenho que admitir que, se calhar, a diversidade começa a ser demais. Desde que vi, no ano passado, uma sessão de penteados em plena Feira, pergunto-me qual o interesse deste tipo de apresentações. Acho que não é preciso arranjar o cabelo em público para promover livros de penteados (nada contra livros de cabelos, até li um excelente este ano), ou levar a cozinha para o recinto em espetáculos de show cooking (lá vem o estrangeirismo, como se não tivéssemos nós vocabulário suficiente) para divulgar livros de receitas. E as sessões de autógrafos, claro, a par com os lançamentos dos livros são quase a nova Modalidade Olímpica. Nada contra, vou a todos os que posso, na Feira e fora dela, mas confesso, a título de segredo, e muito baixinho para que ninguém me ouça, que tenho saudades de desassociar o livro de quem o escreveu.

Hoje é impossível ler um livro sem conhecer o rosto do autor ou autora. São uma espécie de pop stars das redes sociais e demais meios de comunicação, participam em eventos (literários e não só) e sessões fotográficas, aparecem constantemente para que os seus livros não sejam esquecidos no meio da avalanche literária. E eu pergunto-me, quando passeio na minha Feira, e os observo, sentados nas mesas, de caneta na mão, se o escritor, criatura que se isola, como um bicho no seu buraco, para fazer nascer palavras de ideias, gosta de estar naquela espécie de montra, competindo por leitores no meio da confusão de gente que compra livros pelos tops e pelas capas (nada contra mais uma vez, há capas que são belas obras de arte), com música (demasiado) alta, sem esquecer a voz roufenha da senhora (sempre a mesma) que anuncia a localização exacta (nem sempre) de tudo o que está a acontecer e do que ainda espera os visitantes.

Sim, eu visito a Feira ao fim-de-semana, ou de que forma saberia isto tudo senão por observar e participar da confusão? E continuarei a fazê-lo. Mas confesso que a minha Feira é melhor durante a semana. E sabem porquê? Porque consigo ver os livros em paz, sem empurrões e sofreguidões. Sim, o objectivo é ver os livros, às vezes até nos esquecemos disso, com tanta festa, tanto balão, tanta criança a correr e a gritar, que o que interessa são os livros!

Gosto de passear com calma nas tardes de semana, investigar escrupulosamente os caixotes dos descontos e ficar feliz quando aparece aquele livro fantástico por três euros. Não me importo se a edição é mais antiga ou se a capa está marcada pelo tempo, há descobertas que são as relíquias das minhas Feiras do Livro. Vejo com calma os livros do dia, dizendo olá a quem os vende, sorrindo a quem se cruza comigo, tomando notas das possibilidades desse dia, para mais tarde lapidar os excessos (ou o que tenho que considerar como tal por limitações orçamentais), e levar para casa os felizes seleccionados.

Por vezes a estadia prolonga-se. Nos últimos anos a Hora H anima as noites de semana das dez às onze, e grupos de leitores sedentos de descontos começam a chegar pelas nove e meia da noite. Marcam-se encontros, dividem-se famílias por causa das filas, há quem transporte os novos tesouros em malas de rodinhas, dado o peso das páginas resgatadas.

A minha família de dois não fica em casa e parte para essa odisseia literária de lista no bolso. Prioridades estabelecidas, um guarda lugar na fila (coisa feia e tão portuguesa), enquanto o outro, habitualmente eu, procura os tesouros desejados. Torna-se mais divertido juntando famílias, as de sangue e as de coração, unidas pelo gosto da leitura e a paixão pelos livros. É uma hora que passa depressa, em que se corre e ri, que chega ao fim sem ter sido suficiente e que pede que se volte. E volta-se, claro, que as listas não têm fim, e nunca se regressa a casa de mãos a abanar.

Gosto da Feira solitária, em que sou dona do tempo e dos espaços que visito. Gosto de caminhar imaginando como será ler os livros que levo no saco, e de me sentar algures quando a curiosidade é tanta que começo a ler logo ali. E fico lendo, por vezes sentada na relva, mastigando palavras e levantando os olhos em observações pontuais. Tiro fotografias de memória e guardo no álbum da minha Feira traços de outros leitores. Há um velhinho desgrenhado com quem me cruzo todos os anos, normalmente à noite. É muito magro e corcunda, os cabelos não usam tesoura e evitam o pente, os dedos, tortos e retorcidos pela artrite, procuram livros que enchem um carrinho de compras que sobe (e desce) o Parque aos solavancos. Imagino-o a viver numa casa velha como ele, feita de livros. Estantes a abarrotar, livros no chão, nas escadas, livros a sair pelas janelas. Sigo-o e à chiadeira das rodas gastas, e continuo a procura infinita, a busca por novas descobertas, o prazer de olhar, tocar e escolher livros. Por vezes meto-me nas conversas de leitores indecisos, opino e sugiro, aconselho e ouço pareceres. Partilho o sorriso cúmplice da compra recente com rostos desconhecidos, contudo solidários no prazer imenso da aquisição de um livro novo.

Os meus passos atravessam as quatro estações do ano. Primavera, Verão, Outono e Inverno estão sempre presentes na Feira do Livro. Não há ano que não chova nem ano que não se sufoque nas tardes de sol. Não é estranho levar no saco um panamá e um leque, já cheguei a usar galochas e sandálias no mesmo ano. O vento também vai e no ano passado até houve um mini-tornado. Os livros não foram pelo ar (e ainda bem) mas já me aconteceu levar com um chapéu de sol na cabeça. Não é susto que se deseje, garanto.

Por todas estas razões e mais umas quantas que agora não lembro, espero ansiosa por mais uma Feira do Livro. Os planos são os mesmos, uma monótona rotina repetida ano após ano, que adoro. Quero voltar aos piqueniques com amigos, tertúlias de livros com o lanche que cada um leva e partilha. Estendemos a manta habitual e deixamos a tarde passar, veloz, pela conversa descontraída sobre as últimas leituras. Fazemos a pilha dos livros preferidos e aumentamos a pilha dos desejos em anotações nos cadernos. As listas imensas doem no tempo sempre escasso para ler, mas o prazer das linhas lidas, mesmo que poucas, enriquece-nos os dias, os meses, os anos.

Texto publicado na Revista Inominável nº3

publicado por marcia às 10:00
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Sexta-feira, 26 de Maio de 2017

Exposição Book Loving Girls - Retratos de mulheres apaixonadas por livros

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Sou uma das 98 Book Loving Girls e é com muita alegria que partilho a notícia da exposição dos retratos destas mulheres apaixonadas por livros.

A minha sessão foi em Abril de 2015, na Livraria Buchholz, e correu às mil maravilhas. O Mário Pires procura a fotografia imediata e espontânea, o mais natural possível. Ainda estou para perceber, hoje, como é que um perfeito desconhecido me arrancou aquele sorriso, eu, que não sou uma criatura nada sociável nos primeiros contactos. Talvez tenha sido inspiração de Dom Rigoberto, uma das minhas personagens favoritas de sempre, e sobre quem não consigo pensar sem deixar que um sorriso me afague os lábios.

Estou feliz pelo Mário e pelo projecto, por mais um passo no sentido daquilo que o seu autor deseja.

Serão 19 as Book Loving Girls expostas na Fnac do CascaiShopping a partir de 5 de Junho. Visitem o espaço e partilhem esta notícia fantástica. Eu vou!

Conheçam as 98 Book Loving Girls aqui.

Notícia completa aqui.

publicado por marcia às 23:15
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Domingo, 21 de Maio de 2017

O Desafio de superar o objectivo de uma campanha de crowdfunding

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A Colectânea de Contos Desafios da Europa, na qual participo com o Conto Gaveta de Mistérios, reuniu (e ultrapassou) os apoios necessários para publicação.

Agradeço, sensibilizada, aos 50 apoiantes deste projecto, por acreditarem no trabalho dos cinco contistas participantes:

Luísa Semedo - Céu de carvão, mar de aço;

João de Almeida - Caminho em chamas numa casa que gela;

Quita Miguel - Sob um céu de um outro Deus;

Márcia Balsas - Gaveta de Mistérios;

Márcia Costa - Sopro de cinzas;

Não posso deixar de referir o empenho dos meus amigos e amigas, e dos vários blogues literários, que participaram na divulgação da campanha de crowdfunding. O meu muito obrigado pelas vossas partilhas, e por não deixarem “adormecer” a vontade de ver estes contos em livro.

Estão todos no meu coração. Retribuo com o que de mais valioso tenho, a minha amizade.

Este projecto é uma parceria entre a Livros de Ontem e a Junta de Freguesia dos Olivais.

Imagem Livros de Ontem

publicado por marcia às 21:19
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A Páginas Tantas - Livros que se ouvem

Sou só eu que sinto fata de uma boa conversa na rádio? De programas interessantes, com temas actuais, espaços de discussão e reflexão?

Sou só eu que me farto das músicas comerciais, todas iguais, disponíveis nos horários que ando de carro, em que me apetecia mesmo escutar algo diferente?

Mas há quem se continue a juntar para conversar, para chegar a quem quiser estar do outro lado. Actualmente, procurando (que dado é só banalidade), podemos acompanhar podcasts bastante interessantes, nomeadamente sobre livros.

O A Páginas Tantas vai para o ar na Antena 1, à quarta-feira depois das onze da noite, e ao sábado depois da uma da manhã. Podem encontrar-se com a Inês Pedrosa, Patrícia Reis, Rita Ferro e Ana Daniela Soares, e ficar à escuta para uma troca de ideias sempre interessante.

Blogues Literários foi o tema abordado na semana passada e recomendo que ouçam com um caderno para anotar blogues a pesquisar. O meu planetamarcia foi referido, o que me deixou inchada de vaidade!

Sigam todos os episódios aqui.

publicado por marcia às 20:12
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Domingo, 14 de Maio de 2017

Segredos Imorais - Brian Freeman - Opinião

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Por vezes é preciso parar antes de continuar. A ler, entenda-se.

Tenho lido alguns livros fortes. Que mexem com emoções, que exigem uma concentração apurada e espírito crítico alerta. Não me queixo, gosto disso. Na verdade, pensar, argumentar e discutir motivam-me bastante. Mas (e porque há sempre um mas) acontece precisar de um intervalo, de ler um livro como quem vê uma série ao domingo à tarde, de relaxar e desejar apenas e só um pouco de entretenimento.

Nessas alturas passeio os dedos pela estante e sei que me apetece um policial. Gosto do suspense e da dúvida, de tentar descobrir o rasto do assassino, de ler empolgada páginas e páginas de seguida (quanto a este último ponto já depende do policial).

Segredos Imorais satisfez amplamente este meu desejo de emoções fortes controladas. Tem clichés q.b. (também sabem bem), mistério e reviravoltas. E não adivinhei o assassino, o que é uma fabulosa mais-valia. Para saberem do que se trata leiam a sinopse abaixo, antes que eu escorregue em algum spoiler. Parece demasiado reveladora, mas não é tanto assim.

Um livro que cumpriu o seu objectivo.

Sinopse

“Segredos Imorais é um policial americano que marca a estreia de Brian Freeman na publicação. Já comparado a gurus do género como Harlan Coben (autor editado em Portugal pela Presença), Dennis Lehane e Michael Connelly, o autor arrebatou a crítica internacional e conquistou o aplauso de leitores no mundo inteiro. Com base num caso real de uma rapariga desaparecida no Minnesota, amplamente divulgado nos meios de comunicação social, Freeman criou uma obra que utiliza como tema a sedução, encarnada por uma variedade de casais. Rachel nunca conseguiu perdoar a mãe da morte do pai e quando esta se volta a casar engendra um plano para a polícia chegar à conclusão de que o padrasto a matara. O detective Stride entra em acção e devido à complexidade do caso vê-se forçado a rever todas as teorias especulativas para avançar com a investigação. Uma leitura policial, com os ingredientes clássicos do género mas que é também uma obra sobre pessoas.”

Editorial Presença, 2006

Tradução de Lucinda Santos Silva

publicado por marcia às 20:10
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Casa das Letras - O Homem Domesticado, de Nuno Gomes Garcia

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Desde o tempo em que Marine alcançou o poder, dando início a uma nova era, a sociedade foi-se progressivamente desumanizando: os conceitos de amor e de amizade deixaram de fazer sentido, os prazeres são malvistos e o sexo está proibido pelo novo regime totalitário, até porque a reprodução passou a ser padronizada e desenvolvida artificialmente em laboratórios.

As mulheres tornaram-se senhoras do mundo e submeteram os homens à condição de escravos – machos domesticados que, vivendo no medo e na ignorância, lavam, cozinham, obedecem, calam, saem à rua cobertos da cabeça aos pés.

Amores proibidos, subversão, crime, reeducação coerciva – tudo se combina magnificamente neste romance a um tempo sensual e cerebral: uma distopia à maneira de 1984, de George Orwell, que reflecte de forma lúcida e desafiante sobre as problemáticas que caracterizam a sociedade atual.

Nas livrarias a 16 de Maio

publicado por marcia às 10:00
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Segunda-feira, 8 de Maio de 2017

Colectânea “Os Desafios da Europa” - Para apoiar até 15 de Maio

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A uma semana do fim da campanha de crowdfunding, a Colectânea Os Desafios da Europa precisa do empurrãozinho final daqueles que desejam ler os contos sobre esta temática tão pertinente.

Numa época crucial e de mudança constante, há cinco vozes que querem ser escutadas. Há cinco autores que não se resignam à indiferença e ao comodismo, e cujos trabalhos representam cinco olhares sobre a actualidade.

 

Luísa Semedo - Céu de carvão, mar de aço

João de Almeida - Caminho em chamas numa casa que gela

Quita Miguel - Sob um céu de um outro Deus

Márcia Balsas - Gaveta de Mistérios

Márcia Costa - Sopro de cinzas

Reservem o vosso exemplar (ou escolham outra recompensa) e apoiem. O vosso gesto é crucial para que este livro não fique na gaveta.

Acreditem, como eu, quando escrevi o meu Conto, que é possível chegar sempre mais longe. Contudo, sei que é um caminho que não farei sozinha. Conto convosco!

É um orgulho pertencer a este painel.

Este projecto é uma parceria entre a Livros de Ontem e a Junta de Freguesia dos Olivais.

publicado por marcia às 08:00
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Sábado, 6 de Maio de 2017

Canção Doce - Leïla Slimani - Opinião

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Canção Doce já circulava, na versão francesa original, pelas sessões da Roda dos Livros. Como não ficar ansiosa pela edição portuguesa perante os comentários avassaladores de leitoras cujas opiniões tanto estimo? Não domino o Francês, mas a tradução da Tânia Ganho é sempre uma garantia para os leitores. Obviamente que o livro veio cá para casa assim que saíu, e nem passou pela estante.

Duas crianças morrem ao cuidado da ama com quem desenvolveram uma relação de extrema afeição. Louise, a ama dedicada, é contratada quando Myriam, a mãe, decide voltar a trabalhar. Louise afeiçoa-se às crianças e os dois irmãos (Mila e Paul) retribuem o amor da ama numa relação bonita e feliz. Louise permite que os pais se dediquem incansavelmente às suas profissões exigentes, assegurando a harmonia do lar. Estimada por toda a família, a ama chega a acompanhá-los nas férias.

Como se passa de um cenário de felicidade e segurança para a ruptura provocada pela morte? Leïla Slimani escava nas aparências de felicidade e traz para a superfície os medos, anseios e solidões, dissecando-os como causas da degradação humana na sociedade actual.

O percurso de Louise é uma espiral descendente de racionalidade. O amor à família que a contrata evolui para uma obsessão tal que a sua vida fora da casa de Myriam e Paul se resume a esperar pelo momento do regresso. As suas rotinas são cruciais e o receio do vazio que a possibilidade de deixar de ser necessária implica, levam-na a actos descompensados e paranoicos.

Uma leitura aterradora que tive de dosear com ponderação, sob pena de mergulhar na angústia. Mais do que as palavras e a escrita sublime de Slimani, ficam as reflexões a que este livro me obrigou e o inevitável receio de pertencer à sociedade tão bem caracterizada pela autora, com laivos de assustadora realidade.

Louise mata as crianças? Porquê? Antes de lerem o livro pensem se querem mesmo saber.

Eu recomendo, claro.

Sinopse

“Mãe de duas crianças pequenas, Myriam decide retomar a actividade profissional num escritório de advogados, apesar das reticências do marido. Depois de um minucioso processo de selecção de uma ama, o casal escolhe Louise. A ama rapidamente conquista o coração dos pequenos Adam e Mila e a admiração dos pais, tornando-se uma figura imprescindível na casa da jovem família.
O que Myriam e Paul não suspeitam - ou não querem ver - é que a sua pequena família é o único vínculo de Louise à normalidade. Pouco a pouco, o afecto e a atenção vão dando lugar a uma interdependência sufocante, com o cerco a apertar a cada dia, até desembocar num drama irremediável.
Com um olhar incisivo sobre esta pequena família, Leila Slimani aponta o foco para um palco maior: a sociedade moderna, com as suas concepções de amor, educação e família, das relações de poder e dos preconceitos de classe. Com uma escrita cirúrgica e tensa, eivada de um lirismo enigmático, o mistério instala-se desde a primeira página, um mistério que é tanto sobre as razões do drama como o das profundezas insondáveis da alma humana.”
 

PRÉMIO GONCOURT 2016, o mais importante prémio literário francês.

Tradução de Tânia Ganho

publicado por marcia às 13:59
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Segunda-feira, 1 de Maio de 2017

A Construção do Vazio - Patrícia Reis - Opinião

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Poucos são os livros que me proporcionam uma total queda na história. Habitualmente os meus sentidos estão atentos a várias coisas, como o vocabulário, figuras de estilo, ritmo e encadeamento da narrativa, construção de personagens. Contudo, neste caso, alheei-me dessas observações. Bebi a história de Sofia em choque, aterrada e completamente envolvida nas poderosas descrições.

Todas essas coisas que aprecio durante uma leitura foram de certa forma esquecidas aqui, não que não existam ou não mereçam o meu escrutínio (ao contrário), mas porque dei a tal queda (ou salto sem rede ou bungee jumping) em cheio na vida de Sofia, a menina-tesoura que me fez esquecer que estava a ler um livro. Vivi a história sem relativizar e sem questionar, aceitando a crueldade descrita e sofrendo (muito) com ela. Parando muitas vezes para respirar. A análise ficou para depois. Depois de fechar a última página, mas ainda com a voz de Sofia na cabeça.

Senti-me tão atordoada pela história que tive de a viver de modo intenso. Demasiado intenso talvez, pois vi-me completamente enredada nas dores da personagem e, principalmente, na sua infância aterradora, que a condicionou à total descrença na sua própria felicidade. Como é viver com a certeza de não ser merecedora daquilo a que todos aspiram? É essa a dura viagem que este livro oferece.

Meditando um pouco sobre tudo isto, dado que já li o livro há algum tempo, e esperando que este modo de “cair” não signifique um retrocesso no meu sentido crítico, e sabendo (tendo a certeza, vá) que a escrita da Patrícia Reis continua irrepreensível (acho que até melhorou), A Construção do Vazio só pode significar um outro patamar. Para a autora sem dúvida. Para mim, como leitora, de certeza.

Uma experiência inesquecível. Talvez o meu livro preferido de Patrícia Reis. Uma chapada na cara (várias na verdade).

Sinopse

“A história de Sofia, uma menina-tesoura que sobrevive a uma relação de violência e abuso e cresce com a convicção de que a maldade supera tudo. 
Será possível atenuar a dor? 
Como se resiste ao fantasma real da infância? 
Que decisões partem dessa memória e podem limitar a vida? 
Sofia abriga-se na amizade de três homens, Eduardo, Jaime e Lourenço, e vive sem desejo, sem vontade, de construção em construção, sendo o vazio o objectivo final. 
Esta personagem surge pela primeira vez no livro Por Este Mundo Acima (2011) e faz parte do território ficcional da autora que, com A Construção do Vazio, termina um ciclo de três narrativas independentes iniciado em 2008, com o romance No Silêncio de Deus.”

D. Quixote, 2017

publicado por marcia às 11:47
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