Domingo, 30 de Novembro de 2014

A Visita do Brutamontes - Jennifer Egan - Opinião

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Sinopse

“Bennie Salazar, antigo punk rocker, está a envelhecer e é agora um executivo discográfico; Sasha é a sua assistente, uma jovem mulher impetuosa e cleptomaníaca. Apesar de Bennie e Sasha nunca chegarem a descobrir o passado do outro, o leitor vai conhecê-lo, até ao mais íntimo detalhe, bem como a vida secreta de um variadíssimo leque de personagens, cujos caminhos se cruzam com os deles ao longo de muitos anos e muitos lugares: Nova Iorque, São Francisco, Nápoles e África. A Visita do Brutamontes é um livro sobre a interação do tempo e da música, a capacidade de sobreviver, e as mudanças e transformações, quando inexoravelmente postas em movimento ainda que pelas mais efémeras conjunturas do nosso destino. Numa arrebatadora plêiade de estilos e registos - da tragédia à sátira, passando pelo Power Point - Egan captura a corrente que nos atrai para a auto-destruição - à qual sucumbimos se não a soubermos dominar; a fome de redenção de cada homem e mulher; e a tendência universal para alcançar ambas através da ação "condutora" da arte e a música e escapando à impiedosa passagem do tempo. Um livro astuto, surpreendente e hilariante.”

É a primeira vez que, ao escrever a opinião sobre um livro, começo por apresentar a sinopse. Porque foi esta sinopse, a que chamaria antes uma introdução, dado que acho que é impossível realmente escrever uma sinopse sobre este livro, que me levou a comprá-lo, por impulso, com um palpite de que o iria adorar, no mínimo.

Pois estes palpites são muito perigosos. Li umas cem páginas do livro com dificuldade em situar-me cronologicamente, e em perceber quem era a voz de cada capítulo. Lendo aquilo a que chamam sinopse fiquei com a ideia que Bennie e Sasha seriam uma espécie de personagens principais, que toda a acção do livro decorreria em seu redor. E confirmo que assim é. Mas é muito mais do que isso. Há muitas mais personagens e não sei quem são as principais. São todas, numa amálgama de acontecimentos que me fizeram cair a pique na realidade passado-presente-futura de cada uma delas.

Cada capítulo é uma surpresa. Imprevisível. Nunca sabia situar o espaço e o tempo. Parece estranho. E é. Larguei o livro. Vi que estava em bom estado e pensei em voltar à livraria e trocá-lo por outro. Mas depois voltei. Porque o raio de livro semeou em mim uma vontade de o perceber e deslindar que me desafiava. Aceitei o desafio e descobri um dos livros com a estrutura mais impressionante que já li. Entreguei-me com atenção, com vontade de saber tudo sobre esta gente louca que me foi sendo dada aos pedaços, pelas vozes uns dos outros, em décadas para trás e décadas para a frente, sentindo-me um detective a procurar pistas que me ajudassem nessa localização.

No fim fiquei a conhecê-los quase desde a infância. E até sei um pouco dos seus futuros. O primeiro livro que li com uma apresentação de powerpoint. Mais uma coisa que me arrepiou os cabelos mas que depois até achei piada.

Além da estrutura, completamente inovadora, que acabou por me convencer e agradar, há a maravilhosa escrita de Jennifer Egan, que brinca com as confusões que ela própria cria de forma a fazer-me ler repetidamente trechos e ficar, a cada releitura, mais impressionada com a crueza e secura das descrições, não só das acções, mas dos pensamentos deste grupo peculiar. Uma capacidade de construir e desconstruir vidas que me deixou claramente morta de inveja.

Gostava de concluir alguma coisa assim interessante e surpreendente mas nenhuma conclusão que escreva fará justiça à surpresa de ler “ A Visita do Brutamontes”. É capaz de haver uma lição qualquer nisto tudo, acho que tem a ver com o tempo (que se calhar é a tal personagem principal do livro), na forma como nos transforma, esmaga ou enaltece. Com as coincidências e os rumos escolhidos. E claro, com drogas, sexo e rock n’roll.

Para mim fica a dúvida de quem será o jurí do Prémio Pulitzer. Eu que tenho “O Pintassilgo” ali a marinar por achar que tem páginas a mais e história a menos. Será o mesmo que atribuiu o Pulitzer a este Brutamontes em 2011? Talvez. A meio de uma trip de Ecstazy.

Leiam e falem comigo que este livro merece discussão.

“E é possível que uma multidão, num momento particular da história, crie o objeto que justifica o seu ajuntamento, como sucedeu no primeiro Human Be-in e no Monterey Pop e no Woodstock. Ou poderá suceder que duas gerações de guerra e de vigilância tenham deixado as pessoas ávidas pela personificação das suas inquietações na forma de um homem solitário e instável a tocar uma slide guitar.

(…)

Quem lá esteve naquele dia poderá dizer-vos que o concerto começou verdadeiramente quando Scotty se pôs em pé. Foi então que ele começou a cantar as canções que ninguém jamais ouvira, nem algo que se parecesse com elas – “Olhos na Minha Cabeça”, “Xis e Ós”, “Quem Observa Melhor” – baladas de paranoia e despojamento arrancadas  do peito de um homem que, logo que se olhava para ele, se sabia nunca ter tido uma página, nem um perfil, nem um manípulo, nem um aparelho portátil, que não fazia parte dos dados de ninguém, um sujeito que vivera todos aqueles anos enfiado num buraco, esquecido e cheio de raiva, de uma maneira que agora se registava como pura. Intacta.” (Pág. 364).

Quetzal, 2012

publicado por marcia às 17:05
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Sábado, 29 de Novembro de 2014

Livros Horizonte - Celebrar O melhor Vinho para cada data especial do ano, de Vasco d’Avillez

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As datas importantes são para celebrar. O especialista Vasco d'Avillez, diz-lhe qual é o vinho certo para cada ocasião, envolvendoo nas suas histórias.

Um livro diferente dos habituais livros sobre Vinhos, que sugere os Vinhos mais adequados para as principais datas do ano e para os momentos mais importantes da vida.

Vasco d’Avillez é natural de Cascais. Desde 1 de Janeiro de 2011, Eleito Presidente da Comissão Vitivinícola da Região dos Vinhos de Lisboa, com sede em Torres Vedras. Filiado na Confraria do Vinho do Porto; Ordem Enófila de S. Tiago; Membro da Confraria dos Enófilos da Beira Interior, Amigos do J.P, etc.
Licenciado em Ciências Sociais e Política pela Universidade Técnica de Lisboa em 1973. Frequentou vários cursos de Vendas e de Marketing, nomeadamente em Berkley, na Califórnia; em Toronto no Canadá; em Londres no Reino Unido; em Turim na Itália; em Paris, França.

20x25 cm

190 páginas

PVP c/IVA 16,90

publicado por marcia às 19:13
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Livros Horizonte - José Maria Espírito Santo Silva, de Alexandra Ferreira

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Filho de pais incógnitos, é um padre que lhe dá o nome que marcaria a Economia portuguesa. Alexandra Ferreira conta a vida do homem que veio do nada e que acabou a fundar um Império.

Um livro que assinala o centenário da morte de José Maria Espírito Santo Silva, e que conta a história empolgante da vida de um homem, as suas peripécias amorosas e o percurso da sua ambição.

Alexandra Ferreira é jornalista há 12 anos, sempre na área de Economia. Atualmente no Económico, já passou por varios jornais e pelo Rádio Clube Português. Tem um MBA da Universidade Católica Portuguesa e da Universidade Nova de Lisboa. Atualmente é jornalista pivot do Economico Tv onde apresenta Por Linhas Tortas e Bull&Bear. Este é o seu primeiro livro.

17 x 24cm

192 Páginas

PVP c/IVA 16,90

publicado por marcia às 17:15
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Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

O Que é Que os Portugueses Têm na Cabeça?

O Que é Que os Portugueses Têm na Cabeça.jpg

Da inveja, à fatalidade, da falta de pontualidade ao improviso, do chico-espertismo à mania da grandeza e dos doutores, Marisa Moura fala-nos, num tom bem-humorado e acutilante de todas estas características nacionais, reunindo exemplos concretos do nosso passado e presente. Estereótipos ou realidade? Este trabalho traz-nos material para reflectir e pensar.

A jornalista Marisa Moura mergulhou em textos de pensadores portugueses e estrangeiros de hoje e de outros tempos, analisou estatísticas, estudou comportamentos e questionou especialistas para tentar encontrar uma resposta para esta incómoda pergunta. O que é que os portugueses têm na cabeça? Haverá características comuns a todos nós, habitantes deste país com nove séculos de história, recordista no consumo de antidepressivos? Somos marcados pelo fado e pela fatalidade. À pergunta «como tem passado?» segue-se uma sentida lengalenga, como se fôssemos empurrados pela vida. A palavra pontualidade não consta no nosso dicionário, ao ponto de o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, ter-se atrasado 31 horas e 27 minutos na entrega do Orçamento de Estado para 2009. Derretemo-nos por um canudo, doutor ou engenheiro é à escolha do freguês e cai o Carmo e a Trindade quando um ministro ousa pedir que o tratem por «Álvaro, simplesmente Álvaro». Fazemos estádios megalómanos e estradas que não acabam, mas não é de agora. Já D. João V tinha estoirado o ouro do Brasil em obras como o Convento de Mafra, enquanto endividava o país. E como esquecer o improviso, aquela maneira de dar a volta à situação, de contornar o problema, tão comum nos Portugueses? Marisa Moura reune exemplos concretos da nossa história passada e presente, numa tentativa de organizar ideias e ilustrar a nossa (in)consciência coletiva.

publicado por marcia às 19:54
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Domingo, 23 de Novembro de 2014

Estrada de Macadame - Paulo M. Morais - Opinião

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Impossível não associar de imediato Paulo M. Morais a “Revolução Paraíso”, editado no ano passado. Mas na verdade, Estrada de Macadame, agora publicado, foi escrito primeiro.

Gostei muito do “Revolução”, é um livro marcante, pedaço da nossa História, documento real e ficcional numa mistura única e bem conseguida. Mas gostei mais de percorrer esta Estrada, de sentir esta escrita emocional sobre pessoas que perderam e estão perdidas, que buscam o caminho para chegar a qualquer lugar onde deixe de haver dor.

“Estrada de Macadame” é um livro de pedaços de gente. Gente estilhaçada que anda a apanhar os cacos das perdas, que faz tudo mal porque há momentos em que é impossível saber o que é certo.

Nenhum pai deve sobreviver a um filho. Daniel e Gina perdem a filha, Mariana. Como um elo que se parte entre eles e os afasta irremediavelmente, por não saberem como suportar tanta dor. Separam-se pelo espaço de diferentes continentes. Não deixam por isso de sentir as feridas a sangrar. Daniel viaja para a Índia mas não encontra paz. Regressa com a sua dor e as dores das misérias a que assiste. Gina envolve-se com Adolfo, septuagenário viúvo e analfabeto, que se consola no álcool, juntos começam a beber logo pela manhã.

Com Luís, o mais jovem dos quatro, temos o quarteto vencedor das histórias tristes. E lá vão eles pela Estrada de Macadame com a desculpa de assistir a um funeral. Fisicamente, no Datsun de Gina, também conhecido por Rocinante, de outra forma mais profunda e emocional, pelo tempo, pelas histórias de cada um.

Um livro inevitavelmente triste e de uma profundidade humana que me abalou e comoveu. Seria muito fácil resvalar para uma história de gente desgraçada (ou mesmo desgraçadinha) mas neste ponto o autor soube habilmente criar o limite e nunca passar para o lado do lenço ao nariz.

Vidas de pessoas, contadas de forma crua, palavras que por vezes assentam como um soco no estômago. Extremamente real, eu também segui nesta estrada e fiquei a saber tudo. Fui confidente do que naquela viagem se contou. Senti a necessidade de redenção mas não sei se, ainda hoje, algum deles chegou ao fim desse caminho.

Inevitavelmente destaco a qualidade da escrita de Paulo M. Morais, que me soube agarrar nesta longa história triste, mas que consegue, ao mesmo tempo, umas notas de humor particular em momentos inesperados. Na tasca do Jaime acontece sempre algo que acaba por me fazer rir.

“O café do senhor Jaime é um império de tranquilidade. Nas horas mortas, o sossego parece ser o responsável pelas fissuras nas paredes e nos tampos de mesa. O tempo escoa-se, em silêncio, por aquelas rachas minúsculas enquanto o senhor Jaime se entretém a mastigar palitos atrás do balcão corrido de mármore. O dono do estabelecimento é um homem sovina; só quando um palito começa a esfarelar-se na língua é que se dá ao luxo de trocá-lo por um novo.

Há anos que a clientela habitual do café não passa de três homens sentados à mesa da entrada. (…) Quando Adolfo entrou porta dentro pela primeira vez, o senhor Jaime torceu o nariz ao trabalho adicional.” (Capítulo 6)

“Estrada de Macadame” é editado pelo Coolbooks e infelizmente não o temos em versão livro físico, nem é um e-book que possa ser lido em qualquer e-reader. Com esta espécie de “limitação” perde o autor mas garanto-vos que perdem muito mais os leitores. Por isso, independentemente do formato, leiam e não deixem escapar esta viagem.

Muito bom.

Sinopse

“Estrada de Macadame é a história do encontro improvável de quatro personagens com percursos de vida bastante distintos. A uni-los, a dificuldade de ultrapassar a dor provocada pela morte de alguém amado. 
Gina e Daniel separam-se quando percebem que procuram formas diferentes de superar a perda da filha: Daniel decide viajar para a Índia à procura do sentido da vida, Gina decide ficar e refugiar-se na rotina do quotidiano conhecido.
Adolfo, um sexagenário aprendiz de impressor numa gráfica que se tornou perito em afogar a memória da falecida esposa em copos de uísque, é um dos alunos do projeto de alfabetização de adultos em que Gina é professora. Apesar da diferença de idades, os ecos de vida semelhantes levam Gina e Adolfo a envolverem-se. E quando Daniel, obrigado a regressar da Índia, procura recuperar o seu casamento, Gina mostra-se confusa e dividida. 
A morte de um dos clientes habituais da tasca frequentada por Adolfo marcará o início de uma viagem catártica. Gina propõe-se conduzir o seu aluno até ao funeral, juntamente com Luís, um jovem que se tornou confidente de Adolfo. Ao pedir a Daniel que também a acompanhe na expedição até uma distante aldeia alentejana, uma mulher une de forma inesperada os destinos de três homens de diferentes gerações.”

Coolbooks, 2014

publicado por marcia às 16:53
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Segunda-feira, 17 de Novembro de 2014

Mentiras no Divã - Irvin D. Yalom - Opinião

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Nem sempre a escolha da próxima leitura é fácil ou pacífica. Por vezes vejo-me envolvida num escrutínio extenuante entre a vontade que tenho de ler determinados livros, as opiniões que recolhi, as capas, a cor do papel ou o tamanho da letra. Quando a indecisão se torna insuportável opto pelo pim-pam-pum. Neste caso foi o prefácio.

Isabel Stilwell convenceu-me nas primeiras linhas mas todo o prefácio é absolutamente delicioso. Eu já tinha ficado encantada com “Quando Nietzsche Chorou”, e “Mentiras no Divã” não foi propriamente o único livro que corri a comprar de Irvin D. Yalom. Para que conste, morro de vontade de ler todos, os que comprei e os outros todos pois tenho vindo a descobrir que são imensos.

“Mentiras no divã” é um romance contemporâneo, em oposição ao histórico (ou de época se preferirem) “Quando Nietzsche Chorou”. Completamente diferente e, na minha opinião uns degraus abaixo, ainda assim estas mentiras ou corrupio de divãs fizeram-me considerar o meu tempo muito bem empregue.

Decerto baseado na sua experiência como psicoterapeuta e, espero eu, numa boa dose de ficção, o autor leva-nos numa viagem meio louca à intimidade de alguns dos seus pacientes. Dr. Lash é o terapeuta que se vê a braços com algumas situações insólitas. Defensor da verdade e de uma relação sincera com os seus pacientes, é enrolado num jogo surreal de quem-é-quem e, mesmo sem consciência das armadilhas em que o envolvem, acaba por concluir que essa coisa da verdade não é tão linear como parece.

Uma viagem divertida às fraquezas humanas. Uma história séria contada de forma leve que, ao invés de se tornar superficial, como se poderia prever, leva a uma reflexão pelos meandros da natureza humana. Bem escrito, foca os pontos pretendidos de modo objectivo e linear, não se perdendo em artifícios desnecessários. Um livro que cumpre de forma exemplar o seu objectivo de provocar, esticando a linha que separa o terapeuta do paciente.

Gostei bastante.

Sinopse

“Neste provocador romance de ideias, Yalom disseca a complexidade das emoções humanas através do relacionamento de três terapeutas e dos seus pacientes. Num romance tocante e angustiante, Yalom estuda as delicadas fronteiras entre terapeuta e inquisidor, confidente e amante. Seymor, um terapeuta de renome e ex-presidente da Associação Psiquiátrica Americana, é adepto de técnicas pouco ortodoxas e inicia um jogo erótico com uma paciente quarenta anos mais nova. Este tratamento alternativo parece tirá-la de uma rotina de promiscuidade e autoflagelação. Lash é um jovem psicanalista com uma fé inabalável na psicanálise e esconde o seu fanatismo sob a máscara da responsabilidade. Na busca do seu caminho, inventa uma radical abordagem para as suas sessões: honestidade brutal entre analista e analisado. Os resultados são tão inesperados como perigosos. E vê-se na situação de ser vítima da sua própria cura.”

Camões & Companhia, Saída de Emergência, 2010

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Domingo, 16 de Novembro de 2014

Gostas do que vês? - Rute Coelho - Opinião

Gostas do que Vês.jpg

Eu e este livro começámos mal. Ignorei-o completamente por causa da capa, que me remeteu de imediato para essas séries de romances eróticos que aparecem por todo lado como uma praga. Admito aqui a minha total ignorância por nunca ter lido nenhum desses títulos, mas correndo o risco de estar a perder uma grande coisa e até, quem sabe, revolucionar a minha vida sexual, vou continuar a passar ao lado.

“Gostas do que vês?” tem uma capa sugestiva que mostra corpo e uma roupa sensual, mas à medida que avançava na leitura, a minha visão da capa foi mudando. Na verdade, e olhando mais atentamente, o que temos na capa é um espartilho. E lendo, cada vez me fui sentido mais apertada, experimentando a sensação de desconforto de quem não gosta do seu corpo.

Apesar de “Gostas do que vês?” ser sobre duas mulheres tamanho XXXL que encaram a gordura e vivem o seu corpo de formas opostas, Cecília, que vive bem com o físico e tem uma relação saudável consigo própria, não me convenceu. Não que não hajam gordas felizes, de bem com a vida e com o seu aspecto, nada disso, mas porque sempre senti que Cecília, por ser exactamente o oposto de Natália, por vezes até de forma exagerada, seria tão só a pessoa que Natália desejaria conseguir ser.

Natália usa constantemente o espartilho da culpa e da mágoa, sentindo-se cada vez mais infeliz e apertada pelas sua inseguranças e incapacidades de ultrapassar as dificuldades do dia-a-dia. Usa a comida em doses exageradas para afastar a dor, uma satisfação momentânea que acaba por lhe causar mais sofrimento, insatisfação e culpa. Coloca-se em situações que a fazem sentir um lixo, como ser amante do patrão em pensões escondidas e de mau nome. Parece viciada em momentos de infelicidade, convicta de não merecer felicidade ou dignidade.

“Gostas do que vês?” é suficientemente real para ser lido. A pergunta do título é enganosa, não é feita aos leitores ou ao público, mas sim a qualquer um de nós quando se olha ao espelho. E é bom que se goste, pois não gostando, ninguém mais vai gostar.

Sinopse

“Natália e Cecília não se conhecem. São duas mulheres jovens muito diferentes, uma introvertida e amargurada, a outra confiante e determinada. Mas têm a irmaná-las o excesso de peso - e, apesar de cada uma lidar com ele à sua maneira, fugindo do espelho ou assumindo o corpo, a verdade é que nem sempre é fácil viver numa sociedade com os cânones de beleza instituídos e na qual se convive diariamente com o preconceito.
Natália está convencida de que não merece ser feliz; Cecília, pelo contrário, numa atitude desafiante, defende a beleza das suas curvas e o seu direito à felicidade, independentemente da diferença e da discriminação social. 
Num mundo em que se mascara a felicidade com plásticas e dietas loucas, Rute Coelho construiu uma história realista e surpreendente sobre a forma como podemos e devemos assumir o nosso corpo, aprendendo a gostar dele através das mudanças necessárias.”

Oficina do Livro, 2014

publicado por marcia às 22:48
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Sexta-feira, 14 de Novembro de 2014

D. Quixote - Um Circo que Passa, de Patrick Modiano

Um Circo que Passa.jpg

Um Circo que Passa revela bem o estilo de Patrick Modiano, fortemente marcado pela Guerra, pelos anos 40 e pela sua própria infância.

A polícia, os bares duvidosos e as ruas de uma cidade simultaneamente amiga e inimiga – é nesta Paris dos anos 60 que acompanhamos a fuga e as deambulações de um casal à procura do amor. Uma história que tem como narrador Jean, e em que toda a acção gira em torno do seu relacionamento, aos dezassete anos, com a misteriosa Gisèle. Ambos têm muito a esconder um do outro. Partilham, porém, os mesmos sonhos.

Nas livrarias a 18 de Novembro

publicado por marcia às 15:00
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D.Quixote - Domingos de Agosto, de Patrick Modiano

Domingos de Agosto.jpg

Em Domingos de Agosto entramos num fascinante labirinto de mistérios. Por que motivo o narrador fugiu das margens do Marne com Sylvia para se esconderem num obscuro quarto de Nice? Qual a origem do diamante Cruz do Sul, que Sylvia arrasta consigo como uma promessa e uma maldição? De que morreu o popular ator Aimos? Quem é Villecourt? Quem são os Neal, esse estranho casal cujo carro ostenta uma matrícula diplomática? E por que estão tão interessados em Sylvia, no narrador e no Cruzeiro do Sul? Ao longo das páginas deste misterioso romance, onde se cruzam todos estes enigmas, nasce uma história de amor que exala um fascínio que irá dominar o leitor por muito tempo.

Nas livrarias a 18 de Novembro

publicado por marcia às 12:00
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Quinta-feira, 13 de Novembro de 2014

D. Quixote - Meninas, de Maria Teresa Horta

Meninas.jpg

Do fabuloso monólogo de Lilith num paradisíaco ventre materno, primeiro conto deste volume, até «Estrela», que fecha o livro, numa violenta, mas irresistível, história de abuso sexual paterno que leva a filha ao suicídio, Maria Teresa Horta traça, num português sumptuoso, ao longo de trinta e dois contos, uma vasta e belíssima galeria de meninas. Quase todas negligenciadas, quando não abandonadas e maltratadas, entregam-se à magia ou à leitura salvadoras. É assim com Beatriz, à beira do abismo no Faial, com Laura, abandonada pela mãe em «Eclipse», com Branca, perseguida pela madrasta e o pai, com Maria do Resgate, que abre a porta aos anjos na falta da mãe, com Rute, ladra «sem culpa» de uma rosa apaixonante. Mas também com a infância de personagens históricas como a sanguinária condessa húngara Erzsébet, com a rebelde Carlota Joaquina, inconformada com um destino que não quis, a seduzir e a enfeitiçar o pintor Maella, autor do seu retrato oficial, ou literárias como Katie Lewis, apaixonada pela leitura e assim retratada por Edward Burne-Jones, a gerar o fascínio de Oscar Wilde.

Nas livrarias a 18 de Novembro

publicado por marcia às 12:00
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