Sábado, 15 de Maio de 2010

A Escrava de Córdova - Alberto S. Santos - Opinião

 

Apenas recentemente me interessei por este romance, não que me tivesse passado despercebido quando foi lançado, mas foram de facto as notícias da sua edição Espanhola que acordaram a minha curiosidade para o ler. Trata-se de uma das minhas aquisições nesta Feira do Livro de Lisboa e, sem dúvida, uma excelente compra.

Logo de início, e com base na primeira análise estrutural do livro que sempre faço, detectei vários pontos positivos que foram sem dúvida um apoio fundamental na leitura: um mapa do território Ibérico da época; um glossário de termos religiosos e não só, ao qual recorri infinitas vezes; um esquema cronológico simples mas muito útil para contextualizar a acção.

Quem conhece as minhas opiniões e gostos sabe que poucos géneros literários me entusiasmam tanto como o Romance Histórico. Por permitir descobrir sempre coisas novas e aprofundar conhecimentos, por dar uma visão e perspectiva que não tinha ou na qual ainda não tinha pensado, este tipo de livros leva-me sempre numa viagem aos cheiros e emoções do passado. E foi de facto o que se passou neste caso. “A Escrava de Córdova” é, acima de tudo, um livro bem pensado e idealizado, respeita datas históricas, explica acontecimentos reais, e enquadra uma história de ficção que sentimos que pode mesmo ter acontecido.

Ouroana é uma jovem Cristã, nascida no ano de 976 d.c. na zona actual de Entre-os-Rios. No mesmo ano, mas a muitos quilómetros de distância, em Córdova, nasce Abdus. O destino destes jovens vai cruzar-se, o seu encontro fará com que ambos cresçam espiritualmente, pensem e reflictam acerca de Deus, dos costumes em que ambos foram educados e, no fundo, sobre as diferenças religiosas.

O autor consegue, a meu ver, fazer uma extraordinária análise e exposição do que representou para nós a presença Árabe no território que é actualmente Portugal e Espanha. De facto, uma civilização à frente do seu tempo, cujos avançados conhecimentos permitiram construir e manter um império. Desde conhecimentos de Engenharia, Medicina, passando pela importância dada aos registos históricos pela forma como mantinham bibliotecas e livros, até ao culto da beleza e dos cuidados com o corpo, a civilização Árabe era e é de uma riqueza inimaginável, somente perdida e deturpada pelo fundamentalismo que, já nessa época, a veio minando até aos dias de hoje.

Mas voltando ao percurso de Ouroana, é pelos olhos desta princesa Cristã, que por acasos do destino se torna escrava em território Andaluz, que nos é dado pensar sobre todas estas questões que fazem parte das nossas raízes e são extremamente marcantes para a história da humanidade. A saudade, o amor, a amizade marcam a vida desta jovem e, com o tempo, libertam-na de preconceitos para simplesmente procurar ser feliz. Conclusões simples mas profundas que numa sociedade sem maldade e com o verdadeiro objectivo de chegar a Deus, teriam evitado inúmeras guerras e catástrofes.

À parte a história de Ouroana destaco Ermígio. O amigo que, sentindo-se responsável pelo desaparecimento da jovem da sua terra natal, se lança numa odisseia de perigos para a recuperar para junto da família. A viagem de Ermígio é longa e sinuosa, mas é também uma aprendizagem e razão de profundo crescimento interior. Ao deslocar-se para sul vai conhecendo melhor a realidade da cultura muçulmana, vai-se deparando com costumes completamente novos e, inevitavelmente, vai sendo surpreendido com a inegável superioridade de alguns preceitos Árabes. No seu percurso conhece Ben Jacob, um Judeu que é descrito de forma primorosa, pois compreende todas as características habitualmente atribuídas a este povo, desde a aptidão para os negócios aos conhecimentos históricos que marcam uma religião milenar. Ben Jacob é a minha personagem favorita deste livro, o seu surgimento surpreendente nas mais diversas situações vem permitir que a reflexão religiosa e histórica se alargue e adense. Cristãos, Árabes e Judeus. Diferentes perspectivas do mesmo Deus?

Este é simplesmente dos melhores livros que li.

 Sinopse

“A Escrava de Córdova segue a vida de Ouroana, uma jovem cristã em demanda pela liberdade e pelo seu lugar especial no mundo. Confrontada com as adversidades do tempo em que lhe foi concedido viver, e em nome do coração, a jovem terá de questionar a educação, as convicções e a fé que sempre orientaram a sua existência. Será, por entre a efervescência das mesquitas e o recato das igrejas granÌticas da sua terra, que a revelação por que tanto almeja a iluminará.
Uma história inolvidável de busca de felicidade que tem lugar nos séculos X-XI, numa época pouco tratada pela Historiografia oficial e mesmo pela ficção romanceada. Um pretexto para uma brilhante explicação sobre o caldo cultural e civilizacional celto-muçulmano dos actuais povos peninsulares e uma profunda explanação sobre as origens, fundamentos e consequências da conflituosidade étnico-religiosa que hoje, tal como no distante ano 1000, ainda grassa no mundo.
Alberto S. Santos, com rigor histórico e descrições impressivas, revela-nos a mentalidade, a geografia, o quotidiano urbano, as concepções religiosas, a fremente História do dobrar do primeiro milénio, e, sobretudo, a intensidade com que se vivia na terra onde, mais tarde, nasceram Espanha e Portugal. Dá-nos ainda a conhecer o ângulo mais brilhante, mas também o mais duro e cruel, da civilização muçulmana do al-Andalus.”

Prefaciado por José Rodrigues dos Santos e com revisão científica do arabista Rui Santos e do escritor Adalberto Alves, especialista em cultura árabe.

 “Uma teia ficcional muito interessante, carregada de cenas emocionantes, de magia medieval e mitos antigos, bem como de explicações eruditas. Lê-se com prazer e permanente curiosidade e ultrapassa, por essa mensagem, o vulgar romance histórico.” Urbano Tavares Rodrigues

 “… reconfortante, para quantos sentem o fascínio da Idade Média, tempo de luz e de espiritualidade, que não de trevas, como vulgarmente se diz, ver surgir mais um autor português que, com talento, contribui para resgatar do olvido a época de ouro que foi, no nosso território, a do Gharb al-Andalus.” Adalberto Alves, escritor, jurista e conferencista

“Notável e intelectualmente irrepreensível.” Expresso

“Ler este romance fez-me lembrar Amin Maalouf e O Périplo de Baldassare. Aqui vemos o mesmo gosto pelo detalhe e pelo pitoresco, num livro escrito com tanta alma que nos faz desejar ler sempre a próxima página.” José Rodrigues dos Santos, escritor e jornalista

“A Escrava de Córdova apresenta uma sólida documentação histórica, aliada a uma intriga interessante e bem modelada, quer ao nÌvel das personagens, quer ao nÌvel das descrições e da reconstituição dos ambientes.” Maria de Fátima Marinho, Professora Catedrática

“A Escrava de Córdova tem como tese a convivência entre muçulmanos e cristãos (e também judeus), propondo a ideia de um Deus único que se manifesta culturalmente de formas diferentes.” Pedro Sena-Lino, escritor e crítico literário

Porto Editora, 2008

publicado por marcia às 12:12
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2 comentários:
De Dreamfinder a 19 de Maio de 2010 às 21:08
Não é definitivamente o meu estilo de livro, mas volta e meio, quando o vejo na bertrand, tenho vontade de o ler. Agora fiquei ainda mais curiosa. ;)
De marcia a 19 de Maio de 2010 às 22:32
Vale muito a pena, eu adorei! Penso que não te vais arrepender.

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