Terça-feira, 9 de Março de 2010

Entrevista Tânia Ganho

 

Foi com muito prazer que aceitei o desafio da Porto Editora para colocar algumas perguntas à escritora Tânia Ganho. A autora do recentemente editado “A Lucidez do Amor” (opinião aqui) respondeu assim às minhas questões:
Márcia - Como nasceu a paixão pela escrita? Sei que ganhou um prémio literário aos 12 anos, já sabia, nessa idade, o que queria fazer?
Tânia Ganho - Eu diria que a paixão pela escrita nasceu comigo, já vinha inscrita no ADN. Tenho um tio do lado da minha mãe que aos dez anos escrevia poemas extraordinários e, como herdei dele a miopia galopante, é natural que a reboque das dioptrias tenha vindo o gene literário. Lembro-me de passar horas no Jardim Escola a escrever, ou melhor, a transcrever, com a ajuda da mãe de uma colega, os poucos contos tradicionais que conhecia e isso dava-me um prazer enorme. Aos doze anos, quando uma professora decidiu apresentar dois dos meus contos a um concurso literário, já eu sabia que queria ser escritora mas, curiosamente, demorei muitos anos a ganhar coragem para contactar uma editora, o simples facto de escrever bastava-me.
M - Tenho uma grande curiosidade em relação ao trabalho do tradutor, pois fica sempre a dúvida se estou a ler exactamente o que o autor quis transmitir, com o sentido que ele lhe atribuiu. Quais são as principais preocupações quando se faz a tradução de um livro? É um trabalho técnico e rotineiro? Ou antes particular e cada livro é um caso especial?
T.G. - Uma tradução literária nunca é rotineira, ao contrário das traduções técnicas, que são frequentemente repetitivas, basta apreender o vocabulário de base e depois fazer copiar/colar de texto para texto. Cada livro que traduzo é um caso especial, um universo em si, e a minha grande preocupação - talvez por ser escritora - é respeitar ao máximo o texto do autor, em termos de estilo, voz, registo linguístico. Por vezes, é difícil interpretar uma frase ou compreender a escolha de uma palavra em determinado contexto e a grande vantagem de traduzir autores contemporâneos é poder enviar-lhes um e-mail ou marcar um encontro e esclarecer as dúvidas directamente com eles. Uma coisa que adoro é traduzir vários livros de um mesmo autor, como me aconteceu com a Rachel Cusk, a Abha Dawesar, a Chimamanda Ngozi Adichie e a Ali Smith, porque isso me dá um conhecimento tão profundo da obra que já sei que há palavras, imagens e estruturas que se vão repetir de romance para romance. Por exemplo, a Rachel Cusk tem uma predilecção pela palavra «fold», que se repete de livro para livro em diferentes contextos, a Abha Dawesar tem uma linguagem muito repetitiva e clínica, a Chimamanda emprega muito vocabulário em ibo, a Ali Smith adora trocadilhos... O prazer de traduzir um autor passa também pela relação de confiança que se cria com ele.  
M - Gosto muito do David Lodge, como é traduzir um autor com um género tão peculiar e um humor tão próprio?
T.G. - Foi um prazer enorme traduzir A Vida em Surdina e trocar e-mails com o David Lodge. É um autor que está extremamente atento às dificuldades que os seus livros suscitam em termos de tradução e que, por conseguinte, responde às dúvidas dos tradutores com uma grande generosidade, o que faz com que os próprios tradutores se procurem uns aos outros para discutir o trabalho entre si (eu gosto muito de criar uma espécie de rede europeia de tradução e contactar os outros tradutores que trabalharam ou vão trabalhar os mesmos textos que eu). Tive de fazer muita pesquisa sobre Linguística e contactar uma antiga professora da Universidade de Coimbra para confirmar uma série de termos técnicos que o David Lodge utiliza no texto, e passei horas - muito divertidas! - a matutar nos diferentes «trocadilhos» fonéticos para arranjar equivalentes em português que fossem igualmente plausíveis e divertidos. Foi uma daquelas traduções que se infiltrou na minha vida doméstica, era-me impossível desligar do texto, mesmo depois de apagar o computador e dar o dia de trabalho por encerrado.
M - A internet é um espaço de opinião global, onde qualquer pessoa pode publicar o que pensa. A comunidade de leitores existe e os blogues assumem a sua importância na divulgação de livros.  Costuma acompanhar o que se escreve na blogosfera?
T.G. - Tento acompanhar o que se escreve na blogosfera - dentro da medida do possível, claro, porque isso exige um certo tempo - e estou impressionada com a quantidade de blogues literários que existem neste momento em Portugal. Acho maravilhoso os leitores criarem espaços na Internet para falarem sobre livros, trocarem ideias, fazerem sugestões, divulgarem obras. Enquanto escritora, os blogues dão-me acesso às opiniões dos meus próprios leitores, o que é uma experiência extremamente interessante!
M - Como encara esta forma de divulgação? Preocupa-a o que podem escrever sobre si?
T.G. - Podendo qualquer pessoa publicar na Internet o que pensa sobre todo e qualquer tema, parece-me louvável que alguém crie um blogue não para falar de si mas de livros. E, regra geral, quem gosta de ler e tem verdadeiros hábitos de leitura respeita a priori o trabalho dos escritores e não faz críticas vãs ou destrutivas, por isso não me preocupa por aí além o que possam escrever sobre mim. Aprecio críticas construtivas e as que o não são, ignoro. Seja como for, tenho encontrado muito mais comentários  positivos aos meus livros do que negativos, por isso não me queixo dos bloggers portugueses! (sorriso)
M - É expressão recorrente que em Portugal se lê pouco. Concorda? Ou será que já não é bem assim e, apesar de haver mais leitores e maior gosto pelos livros, continua-se a utilizar a mesma expressão gasta e deprimente?
T.G. - É muito gasta e deprimente, tem toda a razão. Há cada vez mais blogues literários, mais comunidades de leitores, mais prémios, mais concursos de escrita, mais gente a ler nos cafés, nas ruas, nas praias. A minha perspectiva é optimista, acho que em Portugal se lê cada vez mais.
M - O que gosta de ler? Que géneros e autores prefere?
T.G. - Pergunta complicada... Como sou portuguesa, gosto de acompanhar o que se publica no nosso país, portanto, sempre que venho a Portugal, compro uma pilha de romances lusófonos e leio-os, mesmo que por vezes o estilo ou o tema não me interesse por aí além. Como vivo em Paris e sou casada com um francês que todas as semanas traz para casa os suplementos literários dos jornais, gosto de acompanhar o que se publica em França, mas neste caso só leio os romances que me despertam verdadeiro interesse. Como tenho laços muito fortes com o Inglês e com a Inglaterra, faço questão de seguir determinados autores e estar a par das novidades literárias. Ou seja, tenho gostos muito eclécticos, mas a verdade é que instintivamente procuro livros escritos por mulheres e, claro, tenho as minhas autoras de culto: Margaret Atwood, Doris Lessing, Joyce Carol Oats, Alice Munro, Jean Rhys, Marguerite Duras, Luísa Costa Gomes, Teolinda Gersão, Ana Teresa Pereira... a lista é longa!
M - Como surgiu e porquê o tema da Guerra como cenário ao seu último livro “A Lucidez do Amor”?
M - É notória, no decorrer do livro, a sua preocupação em descrever a Guerra dos tempos actuais em oposição por exemplo à Guerra do Ultramar; pelo menos foi este o motivo que atribuí à presença dos pais de Paula e às descrições da experiência do pai na Guiné. Porque o fez?
T.G. - A guerra é fascinante para qualquer escritor, mas senti necessidade de escrever especificamente sobre esse tema quando tive um filho, em 2006, que me fez rever toda a minha maneira de encarar a vida e a morte; ainda por cima, na época, eu vivia numa região em França onde havia duas bases aéreas de onde todos os meses partiam novas levas de militares para o Afeganistão, o que me repensar o direito de matar, de tirar uma vida, sobretudo em nome de conceitos como o patriotismo ou de chavões como "a luta contra o terrorismo". Como sempre me intrigou a experiência do meu pai, que esteve dois anos na Guiné mas nunca me falou de atrocidades nem de traumas psicológicos, decidi investigar a questão e, no fim, estabelecer um paralelo entre as guerras colonias e as guerras actuais, aparentemente tão diferentes, mas muito iguais na sua essência, no sofrimento que causam.   
M - O que foi mais importante para si, oferecer aos leitores uma visão do que é uma Guerra hoje, ou mostrar como se vive uma relação a dois quando no meio existe a distância, a constante preocupação e peso de uma Guerra?
T.G. - O mais importante foi falar sobre duas pessoas que se amam e que, por causa da presença da guerra nas suas vidas, são confrontadas com a verdadeira natureza uma da outra e com a real dimensão do seu amor. É fácil desistir de uma relação apontando os defeitos ao outro, é fácil demonizar o que não se conhece ou que não agrada, da mesma maneira que é fácil viver à superfície, num mundo seguro e contido, sem ver além das fronteiras que nós mesmos criamos. O meu desejo foi falar de um sentimento que supera tudo, de um amor pelo outro mas também pelo Outro, entre homem e mulher, e entre povos, raças, culturas. A guerra permitiu-me abordar este tema num sentido verdadeiramente universal.
M - Confesso que as suas descrições sobre o dia-a-dia das mulheres dos militares me surpreendeu e marcou. O facto de a maioria não ter emprego e se dedicar exclusivamente à família e às relações de amizade com outras mulheres na mesma situação, marca uma distância colossal em relação ao dia-a-dia das mulheres que investem na carreira. Acha que a posição activa que as mulheres assumem hoje em dia no mercado do trabalho compromete a família?
T.G. - Não compromete a família se conseguirmos encontrar um equilíbrio entre a carreira e a família, o que é extremamente difícil. O facto de eu trabalhar em casa, por exemplo, permite-me ter tempo para o meu filho sem descurar as traduções, mas há dias em que sinto que estou a tentar conciliar dois mundos que por vezes não são compatíveis. As mulheres entraram no mercado de trabalho, mas a verdade é que não foram criadas estruturas para as apoiar: todas as empresas deviam obrigatoriamente ter uma creche e, num mundo ideal, todas as famílias deviam ter os pais, os sogros, os irmãos, os cunhados por perto, para se entreajudarem. Estamos cada vez mais dispersos, separados dos familiares, e as pessoas encontram-se sozinhas a terem de gerir as doenças dos filhos, as reuniões de trabalho inesperadas, os relatórios da empresa, os deveres da escola... Somos verdadeiros malabaristas, a tentar não deixar cair nenhuma bola.
M - Será que não gostaríamos todas nós mulheres, mesmo que secretamente, ter um bocadinho mais de tempo para os filhos, para os maridos, para as amigas e para aquelas actividades que mais gostamos em detrimento da competitividade do mercado do trabalho?
T.G. - Eu gostava de ter mais tempo para a família, sem dúvida, e sinto que a maior parte das mulheres precisava de ter mais tempo para elas próprias, já nem sequer é para os filhos ou para o marido. Tempo para respirar. Tempo para não fazer nada. Eu, por exemplo, não sei não fazer nada, é terrível, porque não consigo entregar-me ao ócio sem me sentir culpada. O trabalho ocupa uma fatia demasiado grande das nossas vidas, devia confinar-se a horários mais restritos, das nove às três, por exemplo. (risos)
M - Penso que “A Lucidez do Amor” conta uma história dura e narra uma realidade difícil sem se tornar pesado ou deprimente. Concorda? Se sim, foi uma decisão consciente? Porquê?
T.G. - Foi uma decisão consciente, sim. Detesto melodramas e o tema de "A Lucidez do Amor" prestava-se a isso mesmo, por isso optei por um estilo muito conciso, contido, sem grandes tiradas emocionais, para a escrita não se tornar deprimente. E, no fundo, a história da Paula e do Michael é a história de um amor feliz e eu queria passar essa imagem ao leitor.
M - Em relação ao futuro, quais são os seus projectos?
T.G. - Escrever, escrever, escrever. Continuar a traduzir autores que adoro. Aprender a não fazer nada. Ter tempo para respirar. Dar atenção às pessoas de quem gosto.
Agradeço a Tânia Ganho pela disponibilidade e à Porto Editora por esta oportunidade.

 

publicado por marcia às 00:32
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Tanea a 10 de Março de 2010 às 21:37
Por acaso ando a ler o livro desta autora.
Muito interessante até ao momento :)
De marcia a 11 de Março de 2010 às 00:35
Eu gostei muito!

Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.a ler


.a ler também


.Agosto 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. Todos os Fogos o Fogo - J...

. O Motorista de Autocarro ...

. Lançamento do livro "Os D...

. O Homem Domesticado - Nun...

. Eu Confesso - Jaume Cabré...

. Leitura Conjunta - A Músi...

. Porto Editora - A Arte de...

. A Última Rodada - Rui Mig...

. Granta Portugal 9 - Comer...

. A Oeste Nada de Novo - Er...

.últ. comentários

Sim, também eu, a tudo o que escreveste, Paula. Ex...
Tantas palavras que gosto de associar aos contos: ...
Um livro que torna certas as alturas erradas...
É merecedor de atenção, Isaura.
Obrigada pelo comentário, Carlos, depois gostaria ...
Obrigada, Isaura. Escrevo-te uma dedicatória com t...
Olá Márcia,Como já sabes não pude ir à apresentaçã...
Já tinha visto este livro, mas não lhe dei a devid...
Vou ter mesmo que ler...mas acho que não para já.....
Já o comprei, está na lista das obras para ler em ...

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Setembro 2007

.gosto

blogs SAPO

.subscrever feeds