Quinta-feira, 15 de Junho de 2017

Granta Portugal 9 - Comer e Beber - Opinião

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Assino a Granta Portugal há um ano. Semestralmente têm vindo para a estante os exemplares lindíssimos, como de resto o são todos os livros da Tinta-da-China, desta publicação a que ouço chamar revista literária.

Não é o que habitualmente chamo de revista, por isso a Granta é, para mim, um livro. Um livro de histórias, como devem ser os livros, partilhadas a várias mãos. Gosto da variedade e da liberdade de não respeitar a ordem dos textos, de descobrir autores dos quais ainda não tinha lido nada, e de ficar com vontade de conhecer melhor.

A Granta 9 tem uma colecção de textos espectacular o que a torna tão gulosa como o tema, Comer e Beber. Marcaram-me especialmente os escritos de Ana Margarida de Carvalho (Última Ceia), de Sousa Jamba (Açúcar no sangue) e de Luís Afonso (Chez Hippolyte). A banda desenhada (Sleepwalk-Filipe Melo, Juan Canvia) no lugar do habitual ensaio fotográfico agradou-me muito e, não sendo possível manter os dois, pendo para a narrativa gráfica.

Para ler sem pressas quando apetece fugir por uma história.

Comam, bebam e leiam.

publicado por marcia às 22:40
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Domingo, 11 de Junho de 2017

A Oeste Nada de Novo - Erich Maria Remarque - Opinião

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Mais um que já estava na estante há algum tempo. Uma edição muito bem conseguida da Camões & Companhia (Saída de Emergência), com uma capa sóbria de que gosto muito. Comecei a leitura com algum receio quendo percebi que se trata de uma tradução da tradução inglesa e, honestamente, tive pena de não ter reparado nisso quando o comprei, mas li-o muito bem e considero-o uma daquelas leituras inesquecíveis.

O melhor de deixar um pouco de lado as novidades e pegar em livros escritos há mais tempo, é que surgem sempre algumas opiniões de quem já leu determinado livro há alguns anos. E o tempo, meus amigos, lá confere a qualidade dos melhores, deixando arrumados em outras gavetas as obras que não sobrevivem a esse escrutínio. Tudo isto para dizer que quero fazer mais leituras de livros que o tempo, e os leitores, salvam. Espero, ainda este ano, ter a oportunidade de descobrir outras obras intemporais.

E o que escrever sobre A Oeste Nada de Novo que não tenha sido já escrito ou dito? Não sei, nem sinto que tenha algo de novo a acrescentar, contudo conto-vos sobre a escrita maravilhosa, escorreita e fluída, como quem fala, com um quê de musicalidade, que poderá ser uma melodia de fundo. Gostei dos sentimentos, da forma como um livro sobre as trincheiras mergulha tão profundamente na alma humana, como num livro sobre a guerra sobressaem a amizade e a camaradagem, como esta leitura me encantou pela simplicidade e proporcionou a vontade de prosseguir virando páginas.

Gosto de livros assim, que parecem fáceis e podem ser lidos com destreza mesmo pelos leitores mais jovens, mas que, de alguma forma, encerram esse grande segredo só ao alcance de alguns autores: proporcionar um enorme prazer na leitura.

Sinopse

“Nas trincheiras, os rapazes começam a tombar em combate um a um... Em 1914, um professor chauvinista leva uma turma de estudantes alemães - jovens e idealistas - a alistar-se para a «guerra gloriosa». Todos se alistam, movidos pelo ardor e pelo patriotismo próprios da juventude. Porém, o seu desencanto começa durante a recruta brutal. Mais tarde, ao embarcarem no comboio de campanha que os levará à frente de combate, veem com os próprios olhos as feridas terríveis sofridas na linha da frente... É o seu primeiro vislumbre da realidade da guerra.”

Camões & Companhia, 2011

Tradução de Luís Miguel Coutinho

publicado por marcia às 13:41
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Sábado, 10 de Junho de 2017

Casa das Letras - Seja feita a tua vontade, de Paulo M. Morais

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Um médico octogenário, cansado de lutar contra os bichos que imagina devorarem-lhe o corpo, decide que não quer continuar a viver. Metódico e informado, prepara a sua morte: ocupa um quarto da casa, comunica à família as suas intenções e deixa, pura e simplesmente, de se alimentar. Apesar do choque inicial que a notícia provoca, um dos netos resolve ajudá-lo a cumprir a sua última vontade. Visita-o diariamente, e as horas que passam juntos a rememorar o passado e a conversar sobre os tempos que se aproximam constituem uma terna despedida, uma espécie de luto pacificado.

Mas eis que, numa reviravolta inesperada, o médico acorda um dia com uma súbita vontade de viver… E essa atitude intempestiva, em lugar de representar um alívio, abala a já conquistada serenidade, dando lugar a uma convulsão em que mesmo o afeto é posto em causa.

Num momento em que a eutanásia e a qualidade de vida dos mais velhos estão na ordem do dia, o autor constrói neste romance uma narrativa fulgurante que nos leva a pensar como a família – e a sociedade – se deve estruturar para lidar com a morte próxima de um dos seus elementos.

Nas livrarias a 13 de Junho

publicado por marcia às 10:00
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Sexta-feira, 9 de Junho de 2017

Um segredo bem guardado - Tatiana de Rosnay - Opinião

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Fiquei bastante desapontada com este livro, infelizmente. Depois da leitura de Chamava-se Sara, que adorei, estava muito expectante em relação a este Um Segredo bem guardado. É mais um para a série “gostava de ter gostado” e, talvez por isso, o tenha lido até ao fim, sempre à espera de uma aguardada reviravolta que me prendesse às páginas de modo compulsivo, como aconteceu com o livro anterior.

Mas tal não sucedeu e este é mais um exemplo em que o peso das expectativas não permite que se disfrute de uma leitura, assim como o peso de Chamava-se Sara, que foi sempre uma sombra comparativa da qual não me consegui libertar.

É difícil construir um enredo tão arrebatador como o do livro anterior, por todas as condicionantes que o cenário da II Guerra Mundial permite, assim como pela sua envolvência, pelo que é difícil não achar este livro bastante inferior. Apesar da aura de mistério e suspense que a sinopse promete, o “segredo bem guardado” é óbvio desde as primeiras páginas. Confesso que prossegui a leitura esperando que houvesse mais qualquer coisa para revelar, algo bombástico para abanar o livro. Mas não. O que tive à minha espera foi uma sucessão de dramas familiares e pessoais bastante banais.

Além de ter ficado bastante aquém do que prometia, os graves erros de tradução e revisão tornaram, em alguns trechos, a leitura dolorosa.

Sinopse

“O que sabemos realmente sobre aqueles que amamos?
Tudo começou num fim-de-semana junto ao mar. Antoine Rey pensava que tinha preparado a surpresa perfeita para a celebração dos 40 anos da irmã Mélanie: uma viagem à ilha de Noirmoutier, onde ambos tinham passado muitos Verões felizes na infância. Um lugar impregnado de recordações felizes mas também de memórias de pessoas queridas que partiram. O que Antoine não poderia imaginar é que o regresso à ilha teria consequências tão devastadoras. A beleza do lugar desperta em Mélanie memórias de um acontecimento perturbador ocorrido no último Verão que haviam passado na ilha.
Na viagem de regresso a Paris, Mélanie ganha finalmente coragem para contar ao irmão aquilo que sabe, mas é tal a comoção que perde o controlo do carro. O complexo segredo que Mélanie queria partilhar parece assim ficar sepultado para sempre. Mas, na verdade, os segredos de família regressam sempre. E podem ser explosivos. Simultaneamente história de amor, mistério, drama e comédia, Um Segredo Bem Guardado explora com sensualidade e delicadeza as relações entre irmãos, entre pais e filhos, entre amantes, resultando numa narrativa tão emocionante quanto reveladora."

Objectiva, 2012

Tradução de Teresa Machado

publicado por marcia às 13:17
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Quinta-feira, 8 de Junho de 2017

Novidade Sextante Editora - O motorista de autocarro que queria ser Deus e outras histórias, de Etgar Keret

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Depois de Sete anos bons, a Sextante publica a 8 de junho O motorista de autocarro que queria ser Deus e outras histórias, um dos grandes êxitos do escritor contemporâneo israelita Etgar Keret, traduzido diretamente do hebraico. Escrita numa linguagem viva e coloquial, esta é uma antologia de histórias curtas onde o fantástico invade a realidade, misturando-se nela e conferindo a cada episódio um misto de humor e violência surrealizantes. As crises pessoais, os dramas quotidianos e a miséria humana são assim ilustrados em micro-contos de terror, por vezes macabro, não sendo no entanto mais assustadores do que o próprio real que representam. Numa mescla de horror real e horror absurdo, e com o seu inesgotável sentido de humor característico, Etgar Keret apresenta-nos anjos incompetentes, mágicos azarados, homens peludos que são excluídos da sociedade, entre muitas outras histórias incríveis.

Já está disponível e eu não quero perder!

publicado por marcia às 13:13
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Terça-feira, 6 de Junho de 2017

Vozes de Chernobyl - Svetlana Alexievich

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Receio não ter palavras para descrever esta leitura. Mas ficarão sempre comigo as palavras de quem sobreviveu ao desastre de Chernobyl. Cru e impiedoso como a verdade que, mesmo escondida, emerge em livros como este. Svetlana Alexievich deixa que as vozes falem nas páginas deste livro, e eu considero que é nosso dever ouvi-las. Porque há demasiadas histórias que ficam por contar, e sobre Chernobyl há muito para saber.

Custou-me cada página. Não é ficção. Aconteceu. Leiam!

Aproveito para divulgar a tertúlia Elsinore, com Dulce Maria Cardoso, dedicada a este livro. É já no dia 14 de Junho pelas 21h00, no espaço 20|20 Editora, na Feira do Livro de Lisboa. Moderação de Ricardo Duarte.

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Sinopse

“Vozes de Chernobyl é a mais aclamada obra de Svetlana Alexievich, Premio Nobel de Literatura 2015, tida como o seu trabalho mais duro e impactante.
A 26 de abril de 1986, Chernobyl foi palco do pior desastre nuclear de sempre. As autoridades soviéticas esconderam a gravidade dos factos da população e da comunidade internacional, e tentaram controlar os danos enviando milhares de homens mal equipados e impreparados para o vórtice radioativo em que se transformara a região. O acidente acabou por contaminar quase três quartos da Europa.
Numa prosa pungente e desarmante, Svetlana Alexievich dá voz a centenas de pessoas que viveram a tragédia: desde cidadãos comuns, bombeiros e médicos, que sentiram na pele as violentas consequências do desastre, até as forças do regime soviético que tentaram esconder o ocorrido. Os testemunhos, resultantes de mais de 500 entrevistas realizadas pela autora, são apresentados através de monólogos tecidos entre si com notável sensibilidade, apesar da disparidade e dos fortes contrastes que separam estas vozes.”

Elsinore, 2016
Prefácio de Paulo Moura e tradução de Galina Mitrakhovich.

 

publicado por marcia às 23:57
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Segunda-feira, 5 de Junho de 2017

Revista Inominável #8

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Já chegou e está disponível para leitura aqui, através do dispositivo mais à mão!

Descubram as novas participações e as do costume, leiam, leiam, leiam tudo! Um miminho especial de boas-vindas à Inominável Isaura Pereira, do blogue Jardim de Mil Histórias, companheira das andanças blogo-literárias e uma leitora cujas opiniões muito estimo. Descubram-na na página 82, Ela promete Ler o Mundo!

Partilho aqui o meu texto para o Anexo (pág.70) desta edição:

 

A Terapia dos Livros

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Recentemente têm surgido alguns “consultórios literários” e também livros que difundem a ideia de terapêutica através da leitura. Pessoalmente este conceito não me oferece nada de novo, pois eu já me “automedico” com livros há muitos anos. Sei por experiência o efeito que um livro que me agrada tem no meu bem-estar mas, inevitavelmente, e por ter a leitura como uma actividade tão pessoal, hesito em acreditar sem reservas nos “médicos dos livros”.

Já li sobre consultas online e também sobre consultórios fora do espaço virtual, o que não deixa de me surpreender numa época em que todos nos afastamos fisicamente, tendendo a preferir a comodidade das ligações no ciberespaço. Folheei um livro que é um verdadeiro compêndio de mezinhas, substituindo a camomila, a tília e demais plantas ou substâncias por géneros literários, autores ou mesmo títulos concretos, recomendados para distintas maleitas.

Aprecio todas as formas de promover a leitura e sei que os livros que nos preenchem são inevitavelmente uma forma de bem-estar, mas poderá alguém que não me conhece opinar sobre o livro que me fará recuperar de uma constipação? Não me parece. Até porque, por muito que um livro afaste indisposições, não lhe reconheço capacidade de atenuar febre e pingo do nariz. Ou seja, reconheço o potencial da literatura em processos de atenuação de mal-estar mas, como com qualquer banha da cobra, há que estar de pé atrás e não se deixar levar por milagres. Inevitavelmente, acho piada a esse tipo de compêndios (como não gostar de uma medicina dos livros ou dos médicos que prescrevem literatura?), mas arrisco a manter o meu próprio receituário.

Possivelmente estas “consultas” serão proveitosas para quem se inicia na leitura e terá necessidade de orientação. Mas não poderão as bibliotecas ter esse papel? Não será mais inteligente (e mais barato) procurar essa orientação na biblioteca junto de quem (supostamente) ama os livros e lhes dedica os seus dias? Até porque existe a possibilidade de levar livros para casa e fazer todos os testes terapêuticos que se desejar sem custos. Parece-me uma aposta vencedora. Assim como frequentar livrarias, aquelas lojas que vendem livros (só livros) e têm senhores e senhoras chamados livreiro(a)s, que devem ser dos nossos melhores amigos e inestimáveis conselheiros. Melhor que o sofá do psicólogo será tomar assento na livraria, escolher uma pilha de livros e seleccionar romances, contos, ensaios, poesia com a ajuda desse mestre que o(a) livreiro(a) deve ser na vida de um leitor.

Quando me perco por estas reflexões acabo por me entristecer com as tentativas de fazer negócio de algo tão pessoal e fundamental ao crescimento interior de cada um. Mais do que uma posologia diária, um livro é uma arma de enriquecimento individual com um poder único. Pensará por si um leitor que lê o que lhe impingem com a desculpa da cura? Ou será mais forte e imune aquele que procura o seu caminho numa perspectiva de tentativa e erro? Aquele que tanto adora como odeia um livro, que tanto o lê de modo compulsivo como tem ganas de o atirar janela fora. Aquele que pensa e defende convicções. Aquele que segue o seu caminho, mesmo quando o desvio do rebanho é inevitável.

Todos ganhamos em ser, pelo menos uma vez, a ovelha negra de um grupo. Significa que temos a capacidade de fazer escolhas, de dizer não, neste caso específico temos a liberdade de escolher o que nos alimenta a alma. Dessa forma acredito na cura pelos livros. De outro modo será apenas comprar um bilhete para a viagem que toda a gente faz. Eu por mim gosto de descobrir novos destinos.

publicado por marcia às 11:53
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Terça-feira, 30 de Maio de 2017

A Minha Feira do Livro de Lisboa, outra vez!

Há cerca de um ano escrevi o meu primeiro artigo para a Revista Inominável. Chamei-lhe A Minha Feira do Livro de Lisboa, porque fiz (ou tentei fazer) desse espaço o meu quarto de coisas pessoais. Há mais uma Feira do Livro de Lisboa prestes a começar e uma nova Inominável quase a sair. Ando por lá a escrever sobre livros e decidi publicar pontualmente os meus artigos aqui. Boas leituras, boa Feira e boas compras a todos!

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A minha Feira do Livro é só minha. Não façam essa cara que eu sei que chega para todos. Mas a Feira que eu guardo, a Feira que eu espero sempre com ansiedade, aquela em que passeio, sozinha ou com amigos, a que trago para casa nos sacos de livros comprados e no coração, é minha. Só minha.

A Feira nunca está realmente pronta a começar no primeiro dia. Ou porque ainda não chegaram os livros a algumas barraquinhas (agora diz-se stands mas eu não quero saber), ou porque não há multibanco, ou porque não há luz. Sim, lembro-me de um ano em que não havia luz, para compensar chovia copiosamente. Que fui para lá fazer, perguntam-me?  A sério? Ainda acham necessário fazer essa pergunta? Como não ir, se a Feira começou?

A Feira deixa-me saudades desde o dia em que termina. Padeço de sentimentos nostálgicos até ao primeiro dia da Feira seguinte. A melancolia da festa dos livros assalta-me muitas vezes, e, mesmo no dia mais frio do Inverno, sou levada pelo desejo de voltar ao Parque. Imagino o caminhar acima e abaixo, a animação nos rostos, os sorrisos conhecidos com quem me cruzo sempre, todos os anos.

O cheiro das farturas surpreende-me a memória, que a Feira tem prazeres além dos livros, e eu gosto de partilhar um doce com um amigo, no meio da partilha das pechinchas do dia. Com canela e muito açúcar, peço eu, com os olhos brilhantes da gulodice contida no resto do ano. Os cristais de açúcar colados aos lábios lembram-me que nenhuma fartura me sabe tão bem como aquela, que a Feira não pode acabar sem que ceda mais uma vez (e outra) ao pecado da gula, que só é amargo o sabor da fartura que ficou por comer, prometida, mas não cumprida. Esquecida por quem a havia de ter comido comigo.

Gosto de ir logo no primeiro dia. Mas vendo bem, não é uma questão de gosto, é por não aguentar não ir. Como faltar, se a Feira já começou? No primeiro dia janta-se no meio dos livros, num ritual de amigos especiais, bebe-se a primeira ginja e fica-se até ao fim, a ver, lá do topo, a noite a cair no Parque. 

Agora, que a ansiedade desacelera a contagem decrescente, os dias que faltam são os que custam mais a passar, por serem cada vez menos. Preparo as listas de desejos, faço as contas aos meses de publicação e um cálculo aos possíveis descontos, e invento espaço para os livros que hão-de habitar as estantes.
Em 2016 teremos dezanove dias de Feira. Teremos três fins-de-semana de dias longos para assistir com mais tempo a lançamentos e todo o tipo de eventos. Em relação aos eventos, tenho que admitir que, se calhar, a diversidade começa a ser demais. Desde que vi, no ano passado, uma sessão de penteados em plena Feira, pergunto-me qual o interesse deste tipo de apresentações. Acho que não é preciso arranjar o cabelo em público para promover livros de penteados (nada contra livros de cabelos, até li um excelente este ano), ou levar a cozinha para o recinto em espetáculos de show cooking (lá vem o estrangeirismo, como se não tivéssemos nós vocabulário suficiente) para divulgar livros de receitas. E as sessões de autógrafos, claro, a par com os lançamentos dos livros são quase a nova Modalidade Olímpica. Nada contra, vou a todos os que posso, na Feira e fora dela, mas confesso, a título de segredo, e muito baixinho para que ninguém me ouça, que tenho saudades de desassociar o livro de quem o escreveu.

Hoje é impossível ler um livro sem conhecer o rosto do autor ou autora. São uma espécie de pop stars das redes sociais e demais meios de comunicação, participam em eventos (literários e não só) e sessões fotográficas, aparecem constantemente para que os seus livros não sejam esquecidos no meio da avalanche literária. E eu pergunto-me, quando passeio na minha Feira, e os observo, sentados nas mesas, de caneta na mão, se o escritor, criatura que se isola, como um bicho no seu buraco, para fazer nascer palavras de ideias, gosta de estar naquela espécie de montra, competindo por leitores no meio da confusão de gente que compra livros pelos tops e pelas capas (nada contra mais uma vez, há capas que são belas obras de arte), com música (demasiado) alta, sem esquecer a voz roufenha da senhora (sempre a mesma) que anuncia a localização exacta (nem sempre) de tudo o que está a acontecer e do que ainda espera os visitantes.

Sim, eu visito a Feira ao fim-de-semana, ou de que forma saberia isto tudo senão por observar e participar da confusão? E continuarei a fazê-lo. Mas confesso que a minha Feira é melhor durante a semana. E sabem porquê? Porque consigo ver os livros em paz, sem empurrões e sofreguidões. Sim, o objectivo é ver os livros, às vezes até nos esquecemos disso, com tanta festa, tanto balão, tanta criança a correr e a gritar, que o que interessa são os livros!

Gosto de passear com calma nas tardes de semana, investigar escrupulosamente os caixotes dos descontos e ficar feliz quando aparece aquele livro fantástico por três euros. Não me importo se a edição é mais antiga ou se a capa está marcada pelo tempo, há descobertas que são as relíquias das minhas Feiras do Livro. Vejo com calma os livros do dia, dizendo olá a quem os vende, sorrindo a quem se cruza comigo, tomando notas das possibilidades desse dia, para mais tarde lapidar os excessos (ou o que tenho que considerar como tal por limitações orçamentais), e levar para casa os felizes seleccionados.

Por vezes a estadia prolonga-se. Nos últimos anos a Hora H anima as noites de semana das dez às onze, e grupos de leitores sedentos de descontos começam a chegar pelas nove e meia da noite. Marcam-se encontros, dividem-se famílias por causa das filas, há quem transporte os novos tesouros em malas de rodinhas, dado o peso das páginas resgatadas.

A minha família de dois não fica em casa e parte para essa odisseia literária de lista no bolso. Prioridades estabelecidas, um guarda lugar na fila (coisa feia e tão portuguesa), enquanto o outro, habitualmente eu, procura os tesouros desejados. Torna-se mais divertido juntando famílias, as de sangue e as de coração, unidas pelo gosto da leitura e a paixão pelos livros. É uma hora que passa depressa, em que se corre e ri, que chega ao fim sem ter sido suficiente e que pede que se volte. E volta-se, claro, que as listas não têm fim, e nunca se regressa a casa de mãos a abanar.

Gosto da Feira solitária, em que sou dona do tempo e dos espaços que visito. Gosto de caminhar imaginando como será ler os livros que levo no saco, e de me sentar algures quando a curiosidade é tanta que começo a ler logo ali. E fico lendo, por vezes sentada na relva, mastigando palavras e levantando os olhos em observações pontuais. Tiro fotografias de memória e guardo no álbum da minha Feira traços de outros leitores. Há um velhinho desgrenhado com quem me cruzo todos os anos, normalmente à noite. É muito magro e corcunda, os cabelos não usam tesoura e evitam o pente, os dedos, tortos e retorcidos pela artrite, procuram livros que enchem um carrinho de compras que sobe (e desce) o Parque aos solavancos. Imagino-o a viver numa casa velha como ele, feita de livros. Estantes a abarrotar, livros no chão, nas escadas, livros a sair pelas janelas. Sigo-o e à chiadeira das rodas gastas, e continuo a procura infinita, a busca por novas descobertas, o prazer de olhar, tocar e escolher livros. Por vezes meto-me nas conversas de leitores indecisos, opino e sugiro, aconselho e ouço pareceres. Partilho o sorriso cúmplice da compra recente com rostos desconhecidos, contudo solidários no prazer imenso da aquisição de um livro novo.

Os meus passos atravessam as quatro estações do ano. Primavera, Verão, Outono e Inverno estão sempre presentes na Feira do Livro. Não há ano que não chova nem ano que não se sufoque nas tardes de sol. Não é estranho levar no saco um panamá e um leque, já cheguei a usar galochas e sandálias no mesmo ano. O vento também vai e no ano passado até houve um mini-tornado. Os livros não foram pelo ar (e ainda bem) mas já me aconteceu levar com um chapéu de sol na cabeça. Não é susto que se deseje, garanto.

Por todas estas razões e mais umas quantas que agora não lembro, espero ansiosa por mais uma Feira do Livro. Os planos são os mesmos, uma monótona rotina repetida ano após ano, que adoro. Quero voltar aos piqueniques com amigos, tertúlias de livros com o lanche que cada um leva e partilha. Estendemos a manta habitual e deixamos a tarde passar, veloz, pela conversa descontraída sobre as últimas leituras. Fazemos a pilha dos livros preferidos e aumentamos a pilha dos desejos em anotações nos cadernos. As listas imensas doem no tempo sempre escasso para ler, mas o prazer das linhas lidas, mesmo que poucas, enriquece-nos os dias, os meses, os anos.

Texto publicado na Revista Inominável nº3

publicado por marcia às 10:00
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Sexta-feira, 26 de Maio de 2017

Exposição Book Loving Girls - Retratos de mulheres apaixonadas por livros

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Sou uma das 98 Book Loving Girls e é com muita alegria que partilho a notícia da exposição dos retratos destas mulheres apaixonadas por livros.

A minha sessão foi em Abril de 2015, na Livraria Buchholz, e correu às mil maravilhas. O Mário Pires procura a fotografia imediata e espontânea, o mais natural possível. Ainda estou para perceber, hoje, como é que um perfeito desconhecido me arrancou aquele sorriso, eu, que não sou uma criatura nada sociável nos primeiros contactos. Talvez tenha sido inspiração de Dom Rigoberto, uma das minhas personagens favoritas de sempre, e sobre quem não consigo pensar sem deixar que um sorriso me afague os lábios.

Estou feliz pelo Mário e pelo projecto, por mais um passo no sentido daquilo que o seu autor deseja.

Serão 19 as Book Loving Girls expostas na Fnac do CascaiShopping a partir de 5 de Junho. Visitem o espaço e partilhem esta notícia fantástica. Eu vou!

Conheçam as 98 Book Loving Girls aqui.

Notícia completa aqui.

publicado por marcia às 23:15
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Domingo, 21 de Maio de 2017

O Desafio de superar o objectivo de uma campanha de crowdfunding

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A Colectânea de Contos Desafios da Europa, na qual participo com o Conto Gaveta de Mistérios, reuniu (e ultrapassou) os apoios necessários para publicação.

Agradeço, sensibilizada, aos 50 apoiantes deste projecto, por acreditarem no trabalho dos cinco contistas participantes:

Luísa Semedo - Céu de carvão, mar de aço;

João de Almeida - Caminho em chamas numa casa que gela;

Quita Miguel - Sob um céu de um outro Deus;

Márcia Balsas - Gaveta de Mistérios;

Márcia Costa - Sopro de cinzas;

Não posso deixar de referir o empenho dos meus amigos e amigas, e dos vários blogues literários, que participaram na divulgação da campanha de crowdfunding. O meu muito obrigado pelas vossas partilhas, e por não deixarem “adormecer” a vontade de ver estes contos em livro.

Estão todos no meu coração. Retribuo com o que de mais valioso tenho, a minha amizade.

Este projecto é uma parceria entre a Livros de Ontem e a Junta de Freguesia dos Olivais.

Imagem Livros de Ontem

publicado por marcia às 21:19
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